“Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” ou A Importância de Ouvir as Nossas Referências

Em 12.10.2017   Arquivado em Sem categoria

Ter boas referências é um dos primeiros passos para desenvolver a confiança. O que explica o excesso de ruídos em torno das mulheres.

Ilustração: Cloudy Thurstag

Ilustração: Cloudy Thurstag

Escrevo em uma noite que encerra um Dia das Crianças. Lembro-me bem do que a data representava para mim durante toda a minha infância: tratava-se de uma oportunidade perfeita para angariar mais uma Barbie para a minha coleção, “e desta vez”, eu repetia, “vou conseguir a boneca do ano”.

A dita cuja era uma senhorinha sorridente, nariz fininho, cabelos ondulados e muitíssimo bem acompanhada de suas amigas igualmente bonitas e com príncipe um tanto assexuado, mas romântico que só. E quando eu recebia a aguardada caixinha e a revirava para ler as instruções sobre a boneca, via ali algumas fotos demonstrativas com as meninas que usavam o brinquedo da “maneira certa”.

Senhorinhas sorridentes, narizes fininhos, cabelos ondulados e muitíssimo bem acompanhadas de suas amigas igualmente bonitas. Os príncipes estavam ocupados demais com o aventureiro (mas não despenteado) Max Steel ou com carrinhos que enfrentavam tubarões em um parque aquático (que briefing!).

Não vou mencionar as questões socio-econômicas vinculadas à necessidade criada entre as crianças para o consumo desses brinquedos, procure pelo tema “publicidade infantil” no Guia para o Enem mais próximo de sua casa. Nada disso fora negligência da minha mãe, que sempre alimentou minha paixão por livros. A televisão e as lojas de brinquedos apenas tinham ofertas instantâneas de endorfinas e promessas atraentes de sucesso.

O fato é que carreguei essa ausência de representatividade para as revistas que mais tarde passei a ler, para os blogs que acompanhei e para uma boa parte das produções audiovisuais que formaram o meu repertório. Adoro as possibilidades da moda e da beleza desde que me conheço por gente, fui uma criança estranha e esteta, mas há algum tempo eu percebi a toxicidade do que esses universos trazem, e a ansiedade em torno do que eles nos requisitam é apenas um dos sintomas.

Não importa o quanto você compre: você jamais sustenta uma imagem que não é sua.

Hoje, durante mais uma de minhas caminhadas para colocar as ideias no lugar, deparei-me com esse livro, “50 Brasileiras Incríveis para Conhecer antes de Crescer”, coletânea organizada pela cientista política Débora Thomé. Sob o olhar irritado dos vendedores na livraria, folheei página por página, admirando as ilustrações e lendo trechinhos aqui e acolá. Assustei-me quando reparei que estava com os olhos cheios de lágrimas enquanto lia a história de Fernanda Montenegro e quando vi o sorriso de Pagu nos trabalhos da ilustradora Mary Cagnin.

"50 Brasileiras Incríveis para Conhecer Antes de Crescer" ou O Melhor Presente Que Você Pode Dar Para uma Garota.

“50 Brasileiras Incríveis para Conhecer Antes de Crescer” ou O Melhor Presente Que Você Pode Dar Para uma Garota.

Elas estavam lá, uma boa parte delas: as mulheres que sempre me ampararam quando eu me esquecia de quem era. Os olhares afrontosos, os sorrisos largos e contornados por batom vermelho, os cabelos volumosos e rebeldes, os trajes nada convencionais, as palavras afiadas, os corpos muitas vezes afetados pelas condições adversas e o ímpeto selvagem de desassossegar. Eu me sentia em casa, um sentimento que somente poderia ser provocado pela presença de boas referências, aquelas que são firmemente vinculadas aos nossos valores.

Uma fase de transição é sempre acompanhada de estranhamentos, mas conviver com eles, especialmente em relação ao próprio corpo, é um comportamento nocivo e comumente observado entre mulheres. Ouvimos todo o tempo sobre o que deveríamos ser, quando este “ser” na verdade subtende um “consumir” vinculado a uma série de requisitos patriarcais que aprendemos a tomar para nós mesmas. Em minha primeira sessão de terapia, disse diversas vezes que PRECISAVA de um companheiro, quando minhas angústias derivavam de um vazio que era só meu, e que jamais seria preenchido por outra pessoa.

Nós não entendemos a trajetória dos sorrisos e olhares confiantes que encaramos na publicidade. Apenas sabemos que precisamos adquirir um certo batom e um creme facial que corresponde a 1/8 de nosso salário para chegarmos àquele resultado.

Tão grave quanto esse fenômeno são os ruídos em torno de nossas referências e nossos valores. Quantas de nós temos acesso às obras de cientistas, atrizes, cineastas, designers, arquitetas, escritoras, guerreiras e líderes comunitárias em meio à massificação de estilos de vida que marcam o sistema econômico globalizado e patriarcal ao qual somos submetidas? Quantas garotas são incentivadas a entenderem as próprias paixões quando ouvem o tempo todo que precisam ter o traseiro, os lábios e a vida-registrada-em-selfies das irmãs Kardashian? Quantas de nós escutam o legado de nossas mães e avós, quando estamos tão imersas na construção imagética de outras pessoas?

Mulheres, nós precisamos do silêncio e de um olhar generoso sobre nossas essências. Jamais necessitamos tanto de dominarmos o nosso próprio tempo.

Onde saber mais?

Junto da minha investigação pessoal em torno da importância das referências, também tenho questionado o quanto subestimamos a intuição, encorajada pela obra de Clarissa Pinkola Estés em “Mulheres que Correm com os Lobos” (disponível aqui, aqui e aqui!). Essa habilidade poderosa e intimimamente associada às mulheres é gravemente prejudicada pelo excesso de informações. E por excesso de informações, refiro-me a tudo o que consumimos passivamente, sem estarmos em profunda sintonia com nossas buscas.

Mulheres que Correm com os Lobos

O documentário “Innsaei: O Poder da Intuição” (Hrund Gunnsteinsdottir, Kristín Ólafsdóttir, 2016) possui algumas passagens interessantes sobre o impacto dos ruídos sobre o bem-estar das pessoas, incluindo uma participação emocionante de Marina Abramovic. Recomendo fortemente!

O perfil @internoestilo, no Instagram, também possui uma singular abordagem para o estilo pessoal, e meus leitores que se interessam por moda com propósito certamente irão encontrar citações interessantes por ali.

O VÍDEO DE “FREEDOM” É O QUE NÓS PRECISÁVAMOS NO DIA DAS GAROTAS.

Sobre a beleza idiotizada.

O título deste post faz referência ao filme “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (Karim Aïnouz, Marcelo Gomes, 2010), uma das obras brasileiras mais gentis que já tive a oportunidade de ver.