Consumo consciente e movimento maker: precisamos abrir as portas dos bastidores

Em 19.03.2016   Arquivado em Sem categoria

Máquina de costura - SHAPES Sewing Machine - props and styling by Beverly James Neel

Antigamente, quando você desejava comer uma torta gostosa, teria de recorrer ao livro de receitas da família, escolher uma delas e passar uma tarde buscando ingredientes e preparando o prato. Hoje, você provavelmente recorre a uma confeitaria porque está sempre correndo demais para aprender a cozinhar e preparar algo. Estamos cercados de produtos apelativos aos olhos, e tudo pode ser adquirido com uma boa sacudida no bolso.

Por outro lado, nós sequer conhecemos quem esteve envolvido em todo o processo de produção da mercadoria. Não sabemos como os animais que fornecem a carne foram tratados – Rodrigo Hilbert que o diga! Não sabemos se os ingredientes de nosso almoço receberam agrotóxicos, se são transgênicos ou saíram de uma fazendo orgânica. Ou sabemos, e preferimos fechar os olhos.

O mesmo princípio se aplica às nossas roupas. Estamos tão desligados da produção de nossas peças que, quando encontramos alguma notícia sobre uma confecção clandestina ou sobre um acidente como o de Bangladesh, ficamos sem reação. Nós sequer refletimos sobre os preços do que adquirimos. E por estamos tão desvinculados da produção do que consumimos para viver, nos sentimos cada vez mais distantes da mudança.

Precisamos colocar a mão na massa

Tenho alguns motivos para acreditar que estar tão alheio aos modos de produção tem nos tornado cada vez mais infelizes. Colocar a mão na massa, em diversas atividades, é essencial para nos sentirmos mais capazes e satisfeitos. Você não fica feliz quando consegue fazer um jantar delicioso, arrancando elogios de seus familiares e amigos? Ou quando teve a oportunidade de fazer uma aula de cerâmica? E quando aqueles temperos que você plantou na cozinha começam a brotar? Quando nos desvinculamos destes gestos, deixamos que outros o façam por nós, tirando esse ingrediente essencial de toda a produção: nosso trabalho e nossos valores.

Desde que ingressei para o curso de Design de Produto, tenho tentado me afastar um pouco do computador para fazer algumas atividades manuais. Me alegro com cada pequeno progresso em meus desenhos, e sinto a famosa “serendipidade” quando descubro novos ingredientes e receitas vegetarianas novas – eu ainda falarei disso mais tarde por aqui! Não sou uma mestre da cozinha, mas já consegui fazer alguns pratos vegetarianos que arrancaram elogios, e me tornei uma mestre das vitaminas e smoothies (hahaha!).

Adventure Time- Cook

Após me engajar com o Fashion Revolution e com o movimento slow, percebi, aos poucos, a importância de estar inserida no fazer, de alguma forma, para uma economia sustentável. E você não precisa ser multitalentos para isto.

Se você conhece a procedência do que você consome, sabe a quem isto beneficia e acredita neste produto, já é um progresso para que o seu ato de consumo não seja apenas uma compra, mas um investimento. Hoje, vejo cada gasto meu como um investimento em um projeto bacana. Sei que um alimento cultivado com carinho fará bem ao meu corpo, e sei que uma peça de roupa feita por pequenos produtores beneficia diversas famílias. É um tanto difícil levar esta lógica para todos os gastos, mas tenho tentado aplicar ao máximo. E isto me deixa mais feliz! Sinto que é um pequeno gesto para provocar mudanças boas em nossa sociedade. Sinto que tenho mais poder de ação sobre os problemas que temos.

É por isto que acredito tanto no potencial de iniciativas como o Consumo Consciente e o Movimento Maker. Com acesso a informações e tecnologias relativamente baratas, podemos construir, modificar e fabricar diversos itens com nossas próprias mãos.

Feministas promovem oficinas de bordados girl-power, mais e mais pessoas buscam oficinas de costura, temos acesso a blogs de receitas (indico o Fotografando à Mesa: impossível não cair de amores pelas receitas e pela simpatia do casal Isabella e Felipe!) e podemos montar as nossas próprias impressoras 3D. Em 2013, Kodjo Afate Gnikou, de Togo, construiu uma impressora 3D com lixo eletrônico, lançando uma solução para o problema dos materiais descartados a céu aberto na África. Veja neste link! No Sudão, voluntários criam próteses open source produzidas em impressoras 3D, como você pode ver aqui. A israelense Danit Peleg imprimiu toda a coleção de roupas que desenvolveu como trabalho de sua graduação em uma impressora 3D. Confira neste TED Talk! Isso não é fantástico?

Uma das peças impressas por Danit Peleg.

Uma das peças impressas por Danit Peleg.

 

Danit Peleg - 3d printing fashion 1

Uma das peças impressas por Danit Peleg.

Abrir as portas para os bastidores da produção do que consumimos é essencial para que possamos propor mudanças e cobrar posicionamento das marcas. Eu não quero ser uma consumidora passiva diante de uma esteira com produtos. Quero fabricá-los, conhecer seus produtores e ter o direito de recusar aquilo que não preciso. E você, já se sentiu feliz por colocar a mão na massa e se empolgou por conseguir fazer algo que jamais sonhou fazer? Conta aqui nos comentários para a gente!

Update: a equipe do Desvelocità fez um post bem interessante sobre a origem do movimento Do It Yourself (DIY, os famosos tutoriais que tanto buscamos pela internet e em revistas!). Veja aqui!

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Este post é uma pequena contribuição para o Fashion Revolution. Questione-se. Reflita. Quem fez as suas roupas?

 

  • Camila Faria

    Em 19.03.2016

    Oi Ana, eu iria até um pouco além… acho que quando a gente começa a efetivamente “fazer” (seja uma receita, um móvel simples, um acessório bacana etc.), começamos também a nos conhecer mais intimamente. Esses processos de construção exigem que passemos um (bom) tempo com a gente mesmo, descobrindo habilidades, gostos, desejos, enfim… um monte de coisas sobre quem a gente é. É um processo de auto conhecimento também. E o sentimento de realização é maravilhoso também, né?