Resenha: Elle tem boas intenções, mas ainda temos muito o que aprender sobre o feminismo

Em 16.12.2015   Arquivado em Sem categoria
Mahany - Elle - Manifesto Feminista - Dezembro 2015

Mahany para Elle Brasil. Fonte: Buzzfeed.

Eu soube através de um inbox que recebi: “O que você achou da carta da Susana Barbosa para a Elle de dezembro?“. Em tempos de vestibular, eu estava mais desligada sobre o que ocorria nas bancas do que a minha cachorrinha Lili, que só quer saber de comer e tirar gostosas sonecas. Corri para o site da revista e o que vi fez com que meus olhos brilhassem: A Elle deste mês trouxe um manifesto feminista para a sua capa, assinado por Juliana Faria, Clara Averbuck, Djamila Ribeiro, Coletivo Blogueiras Negras, Sofia Soter e Helena Dias. Quatro capas diferentes traziam modelos belíssimas ao lado de frases ícone do feminismo. É claro que fiquei bastante empolgada e até mesmo posei com ela em meu Instagram. Mas isto durou pouco tempo.

A edição é repleta de preciosidades, e eu sempre as enxergo primeiro em uma leitura mais superficial das revistas. A capa que escolhi traz a belíssima Mahany em um vestido Giuliana Romanno em rede, imponente como uma sereia. Nos anúncios iniciais, Naomi Campbell está belíssima no anúncio da Burberry, a Miu Miu continua com o seu belíssimo trabalho de diálogo com tribos urbanas e Camila Queiroz tem uma doçura cativante para a Vivara. A diagramação da revista é brincalhona e tenho grande interesse pelas matérias de lifestyle e cultura. A presença de uma pessoa alegre como Camila Schnarndoff mostrando o seu guarda-roupa precioso é contagiante para que enchamos os nossos com ousadia.

Laureen - Elle Brasil - Manifesto Feminista - Dezembro 2015

Laureen para Elle Brasil

As revistas de moda em relação ao feminismo

A carta de Susana Barbosa, diretora de redação da Elle, soa como um grande pedido de desculpas. O trecho mais icônico:

“Afinal, o que uma revista de moda (que sempre ditou regras e padrões) estava se propondo a fazer ao entrar nessa seara [o feminismo]? Vender uns exemplares a mais para surfar na onda de um movimento sério como esse? Historicamente, revistas de moda são sim uma das grandes responsáveis pela ‘objetificação’ da mulher por impor padrões ao corpo, pele e cabelo, por fechar os olhos (ou as páginas, melhor dizendo) à diversidade”.

Com todo o respeito, que bom que reconhece, Susana. Pois um dos primeiros anúncios da revista é o da Le Lis Blanc, acusada recentemente por utilizar mão de obra em condições deploráveis, para não dizer análogas à escravidão. Qual o posicionamento da Elle diante desta situação? Por que as milhares de mulheres que trabalham em péssimas condições para a indústria da moda pelo mundo não estão nas milhares de imagens trazidas pela revista? Quando é que a Elle vai se posicionar firmemente sobre o assunto? Quando é que o apelo de Raf Simmons sobre o ritmo da indústria da moda vai citar os nomes dos bois na publicação? Infelizmente, a pauta continua sendo delegada a jornalistas que não têm entendimento sobre a dinâmica da indústria da moda e sem tempo para maiores aprofundamentos. Vocês continuam fechando os olhos, e creio que grande parte do problema está na escolha dos anunciantes para a revista. Como você mesma disse:

“(…) está mais do que na hora de usar o alcance que temos em todas as nossas plataformas para contribuir de alguma forma para esse diálogo sobre a mudança. Queremos participar e incentivar essa conversa. Porque acreditamos que o mundo mudou e só existe um caminho: você pode ser o agente da mudança ou ficar em sua zona de conforto e ser atropelada por ela.”

Gizele Oliveira - Elle Brasil - Manifesto Feminista - Dezembro 2015

Gizele Oliveira para Elle Brasil. Fonte: Buzzfeed.

 

Waleska Gorczevski - Elle Brasil - Manifesto Feminista - Dezembro 2015

Waleska Gorczevski para Elle Brasil. Fonte: Buzzfeed.

Este movimento está sendo feito, mas ele engatinha, e precisa apressar os passos. Para mim, o feminismo pautado pela revista é bastante voltado a um público universitário. Traz pessoas admiradas por minhas colegas de curso, frases bonitas para serem replicadas em redes sociais, um rosto jovem, cheio de colágeno. O feminismo nas universidades é ouvido, e ainda que seja um marginal em um país onde pessoas como Cunha têm lugar garantido na política, está relativamente confortável nesses ambientes. O grande problema é levá-lo às nossas avós e tias costureiras, que sofrem situações de assédio em fábricas e não têm os seus direitos mais básicos garantidos. Sei que parte disto se deve ao público pretendido pela revista, que tem um custo alto para pessoas de classes mais baixas. Mas elas merecem continuar sendo ignoradas? Qual é a real diferença entre as costureiras do Camboja, que trabalham mais de 10hs por dia, ganham pouco, se separam de suas famílias, são expostas a situações de violência e contaminação grave em ambiente de trabalho, e as hoje enaltecidas sufragettes?

Onde estão as gordas e negras?

E por falar em minorias, as gordas e negras continuam com uma presença bastante tímida na revista, principalmente as primeiras. Em toda a minha leitura, eu só vi mulheres gordas no anúncio da Elegance Plus Size. Onde estão Ashley Graham, Candice Huffine, a brasileira Fluvia Lacerda e a defensora do meio ambiente Laura Wells? Caso o problema seja o casting das agências, a Ju Romano citou 10 modelos plus size, caso se interessem. Nas fotos de streetstyle, elas também estão ausentes, como se não houvessem it-girls e blogueiras negras e gordas bem sucedidas e estilosas em quem se espelhar. Mulheres transgênero foram deixadas completamente de fora da edição. É preciso lembrar que a diversidade é tratada em diversos pontos do Manifesto Feminista, principalmente nas falas de Helena Dias e de Djamila Ribeiro.

Maureen Powel durante o Fashion Week em Tel Aviv. Fonte MaureenPowelCom

Maureen Powel durante o Fashion Week em Tel Aviv. Fonte: MaureenPowel.com

Pontos fortes e fracos

A modelo angolana Maria Borges é citada durante um trecho sobre a força dos cabelos no movimento feminista. De fato, ela foi a primeira modelo negra a desfilas com os cabelos naturais. Por acaso, ocorreu citar o motivo de Rihanna ter se recusado a fazer um dos shows para o desfile? A ausência de modelos negras foi sentida pela cantora, e a ela se uniu a modelo Jourdan Dunn. Os tweets foram apagados, mas felizmente alguns sites deram o print a tempo.

Jourdan Dunn sobre Victoria's Secret Twitter

Comentário de Jourdan Dunn sobre o VSFS deste ano.

A entrevista com Carey Mulligan é ótima, e é importante que a revista retrate a dificuldade das celebridades, especialmente das mulheres, diante de críticas e o destaque demasiado ao corpo. Carey também aponta a dificuldade de encontrar boas informações sobre as sufragistas e como a história das mulheres é pouco contada.

A matéria “Mulheres, câmera, ação!” é boa, mas já estamos em temporada de Oscar, e os filmes propostas para o final de 2015 e início de 2016 ganharam destaque pela temática feminista. Seria ainda mais legal se a Elle retratasse as temáticas propostas pelos filmes em destaque. Só para citar, temos Carol (Todd Haynes, que retrata a paixão entre duas mulheres), Freeheld (Peter Sollet, sobre a dificuldade de separação de bens em casos de casamentos homossexuais), About Ray (Gaby Dellal, onde Elle Fanning faz um menino transgênero) e a Garota Dinamarquesa (Tom Hooper, em que Eddie Redmaynie vive a história do pintor dinamarquês Einar Mogens Wegener, pioneiro da cirurgia de mudança de sexo). Aguardemos as próximas edições.

O principal editorial da revista, chamado “Elas por Elas”, é organizado por Susana Barbosa e foi clicado por Nicole Heiniger. As fotos são belíssimas, e preciso elogiar a beauté do ensaio, que exaltou o olhar das modelos, fazendo um belíssimo trabalho nas sobrancelhas e na pele delas. Há, porém um problema grave de direitos autorais. A arte do editorial e da capa foi inspirado no trabalho de Barbara Krunger, artista gráfica que se destacou pelo seu trabalho de colagens com forte apelo feminista. E ela não é mencionada em qualquer parte da revista, nem mesmo na Carta da Diretora ou nos Insiders.

Barbara Krunger: "Your Body is a Battlegorund". A artista gráfica não foi creditada na revista, e espero que a Elle possase retratar.

Barbara Krunger: “Your Body is a Battlegorund”. A artista gráfica não foi creditada na revista, e espero que a Elle possase retratar.

“Só Garotxs”, com fotos de Fe Pinheiro, retrata a coleção masculina de verão 2016 da Gucci, trazendo a proposta genderless. Alessandro Michele possui um trabalho belíssimo, e o editorial ressaltou as texturas e a unicidade de seu trabalho. “Levante Voo” é clicado por Fabio Bartelt e traz cores belíssimas, um editorial delicioso de admirar.

Balanço Final

A proposta da Elle ao lançar um manifesto feminista é um tanto corajosa, considerando o público que ela tem. É também uma ação contextualizada, após milhares de mulheres irem às ruas e ganharem manchetes por protestar contra os absurdos de Cunha no Congresso. Porém, ela ainda engatinha, e como toda a prendiz, ainda comete erros. Eu ainda espero que no futuro, ações de sustentabilidade e luta por condições de trabalho justo sejam assumidas como pautas para uma revista de moda. São justamente os leitores de revistas como estas os agentes fundamentais para que a responsabilidade sobre o consumo deixe de ser assunto de um público de nicho. Deixem a consciência do leitor pesar, pessoal. A Moda nunca foi sobre estar alheio ao mundo, mas por estar profundamente conectado ao que acontece a ele.

  • Mariana

    Em 16.12.2015

    Eu adoro tudo que apoia o feminismo porque nós realmente precisamos desse apoio, mas para mim a ideia que mais me decepcionou nessa campanha foi como você citou “onde estão as gordas e negras?” Apesar das frases, as fotos da capa não são diferentes de outras tantas lançadas anteriormente, e eu não notei anteriormente, mas como você citou, criar quarto de uma vez (em vez de por exemplo lançar quatro edições seguidas em apoio ao feminismo) realmente soa como se a elle estivesse usando o movimento para lucrar.
    Beijos e até mais :*
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  • Pumplemousse

    Pumplemousse

    Em 16.12.2015

    Oh, Mariana, obrigada pela visita, volte mais vezes para trocarmos ideias! :) Abraços,

  • Camila Faria

    Em 16.12.2015

    Que saudade de vir aqui e ler seus textos, sempre maravilhosos Ana! Realmente ainda estamos engatinhando no que se refere a representatividade nas revistas e outros meios de comunicação. Mas estamos de olho ~ e não podemos deixar barato!

    Beijo lindona!

  • Pumplemousse

    Pumplemousse

    Em 16.12.2015

    Camila, obrigada por ter vindo! Sim, estamos de olhos atentos!