Car*lho, o que a falta de tempo está fazendo comigo?

Em 07.09.2016   Arquivado em Diário de bordo

Cacete, eu tenho andado tão bolada quanto Kanye West – se você não se chama Ana Rodarte, não me compare a Kanye, eu abomino este homem (ok, talvez eu realmente o adore, mas mantenha isto em segredo e longe daquela tagarela egocêntrica). Carrego um pote de castanhas na bolsa para estar sempre em dia com as gorduras boas que devemos ingerir diariamente, tomo suco verde todos os dias, uso protetor solar, sou vegetariana, ando como um rurouni e tomo mais líquido que a sua caixa d’água. Mas eu tenho me sentido doente.

Estou sem tempo e tenho um mundo inteiro para conhecer. Ainda não fui a Paris, não vi os bordados da Maison Lesage, não vesti uma Agent Provocateur, não usei Manolo Blahniks para comer macarrons na Fifi Chachnil e definitivamente não falo italiano. Estou sem energia, constantemente cansada e, ao mesmo tempo, sedenta. Eu me sinto constantemente como a Rory Gilmore quando ela encara a biblioteca central de Harvard pela primeira vez. Estou devastada pela minha pequeneza.

 

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E se você acha que a falta de tempo é algo bonito para se exibir por aí, eu gostaria de esfregar um belo prato de torta nesta sua fuça. Falta de tempo emburrece. E eu vou lhe contar como descobri isto:

A menina com a viseira

Precisava encontrar tecido para produzir um vestido na aula de costura. A start-up onde trabalho fica em um prédio que se ergue acima de uma loja de tecidos. E mesmo que eu encarasse aquelas vitrines todos os dias em meu caminho apressado para o trabalho, eu jamais pensei em entrar ali para encontrar o que eu precisasse – estranhamente, a loja de tecidos é decorada por uniformes de super-heroi, e é inevitável pensar em como eu ficaria com os braços da Mulher Maravilha quando passo por ali. Cheguei à aula de costura com as mãos abanando. Quando a professora me questionou sobre a loja (ela sabe onde trabalho), quis cavar um buraco no chão, mas estava sonolenta e cansada demais até para sentir vergonha. Estava tudo abaixo deste meu nariz gigantesco.

Na outra semana dediquei-me a uma verdadeira saga por um pouco de viscose estampada. Após ver muitos (muitos!) rolos de tecidos com poliéster de causar desgosto até mesmo à gripe espanhola, voltei para casa com um tecido que hoje reluto em não encarar como algo mais apropriado para um pijama.

Não vou lhes contar sobre as dificuldades que tive para comprar roupas, sendo que trabalho em um dos maiores bairros comerciais de Belo Horizonte.

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A Fifi Chachnil é o presente que toda apaixonada por lingerie nesta Terra pediu à deusa Tyra Banks. E ela nos atendeu com um toque extra de pompons cor-de-rosa.

A teimosia de uma mula

Vivo em um templo de terapias holísticas. Ou pelo menos é o que a minha mãe quer fazer com a nossa casa. Esta senhora já se formou em Reiki, iniciou Yoga, faz meditações diariamente há pelo menos 5 anos e conversa mais com as plantas do que ela provavelmente já fez comigo. Quando tenho alguma dor no estômago ou algo relacionado ao útero, ela logo me pergunta se passei por alguma situação estressante recentemente. Minha mãe é uma bruxa, e isso é sensacional.

O fato é que sou só mais uma jovem que finge ser durona e descolada, boba como todos de minha idade. Minha mãe insistiu para que eu fizesse meditações por uma boa parte da adolescência, e depois de eu muito repetir que tudo aquilo não passava de um ritual hippie tedioso, ela desistiu de tentar me persuadir.

Bom, agora tenho 23 anos, tenho cada vez mais crises de choro e vivo em crise comigo mesma. Vivo pedindo um tempo para as coisas sossegarem nessa cabecinha. Tento aprender a meditar com um aplicativo que só consigo usar por ele ter uma versão para navegador gratuita. Por trás de um livro de Jung, minha mãe fica a me encarar com aquele misterioso olhar que a espécie dela desenvolve ao longo dos anos, algo que mistura um “toma, trouxa” com um comedido “eu avisei”. Não, eu não vou pedir a ajuda dela.

As páginas brancas do caderno

Eu estava em meio a uma das aulas da Perestroika. Lutava para me sentar de uma maneira confortável, que me permitisse anotar, estacionar os olhos deslumbrados nos slides e não exibir a marca de minha calcinha para ninguém – desculpe, cara, eu realmente detesto usar calça. Estávamos todos falando sobre a importância de estarmos com o olhar sempre atento, anotando e desenhando tudo. O olhar inquieto de um artista é realmente um dos fenômenos mais fascinantes deste planeta. Então eu vi as páginas vazias de meu caderno. Bateu-me uma tristezinha nada boa. Há quanto tempo eu não desenhava? Por que eu tinha tanto medo?

Eu comecei ali mesmo. E de lá para cá, ainda em meio às aulas, procuro fazer uma pequena ilustração ou outra, registrando algo bonito que eu tenha imaginado ou visto. Mas eu preciso de treino em casa, e as páginas de meu Canson continuam vazias. Quando começo, cada traço receoso causa-me uma pontada de tristeza. Aquilo já foi tão fácil! Algumas vezes, consigo um pouco de disciplina. E depois de algumas horas, eu me encontro em posição de conforto novamente. As coisas fluem. Mas até lá, haja tormenta.

Gif: Tara Dougans

Dia desses minha mãe me pegou aflita enquanto eu falava sobre minha agenda apertada. Havia ali uma série de boas intenções, e certamente uma série de estudos que poderiam resultar em coisas legais. Estou como uma esponja, procurando cursos e oportunidades para desenvolver meus projetos. Então a minha mãe interrompeu meu falatório para enunciar mais uma de suas falas de bruxa: “Ana, a sustentabilidade vem de dentro!”.

Devo tê-la encarado como se encara o umbigo. Estou acostumada a esbarrar em provérbios chineses e similares nesta casa, mas sabe, havia ali um bocado de razão. De que adianta sair por aí falando em um ritmo melhor para todo mundo, na importância de um modo de produção mais ético, se eu ando me tratando desta forma? Quis cancelar todos os meus compromissos e sair correndo daqui para sossegar em um lugarzinho isolado. Eu não podia. O dinheiro anda curto, a faculdade já iniciou o semestre e ainda tenho muitas pessoas para cuidar. Mas ficou em mim esse desassossego: eu preciso ficar sarada, eu preciso conhecer o mundo, eu preciso descobrir o meu estilo, construir um guarda-roupa legal, me formar com glória e empreender. Eu preciso ser sorridente e equilibrada.

Mas eu também preciso de tempo. E o tempo precisa da gente, porque já não o vemos passar.

Gif: Tara Dougans

As ilustrações deste post são todas da ilustradora holandesa Tara Dougans. Veja mais sobre ela aqui! A Perestroika anda à busca de talentos para o Muda, curso sobre Moda Sustentável que vai ter o pontapé inicial aqui em BH, por motivos muitos especiais. Conhece alguém? Marque esta pessoa especial neste post!