Conheça a Dear Kate

Em 26.07.2014   Arquivado em Sem categoria

A primeira entrevista do Fashiombudz é internacional. Conheci a Dear Kate através do site Under the Unders, que foi uma grande inspiração para que eu retomasse meu interesse por Moda e iniciasse um olhar mais apurado sobre o tema.
A Dear Kate se propõe a construir um novo conceito para lingeries a partir do trabalho da engenheira química Julie Sygiel, que criou um tecido com grande potencial absorvente e que oferece à pele a possibilidade de respirar – a tecnologia Underlux. O que me atraiu foi a proposta da marca de conceder às mulheres a confiança para fazer o que quiserem oferecendo uma lingerie que se condicionasse aos desafios do cotidiano. Assim, enviei algumas perguntas que foram prontamente (que pique!) respondidas por Jenna Steckel, membro da equipe. A entrevista também está disponível em inglês para os bons entendedores e foi traduzida por mim.
The interview in English is at the end of this page.

DearKate

1. Qual é a diferença de produzir um produto feito de mulheres para mulheres?

Dear Kate foi fundada para solucionar um problema que a Julie, a fundadora, experimentou por ela mesma. Quando você parte de uma necessidade para você mesmo e da comunidade daqueles com necessidades similares, você cria algo que é mais consciente das verdadeiras necessidades da comunidade que tem em mente, orientado para algo que realmente funcione, muito além de algo que talvez soe como uma boa ideia.

2. Por que uma boa lingerie empoderaria mulheres?

É algo que você veste todos os dias, perto de seu corpo, então as mulheres esperam muito disto!

3. As peças da Dear Kate se relacionam com a rotina das mulheres. Qual é a importância de uma marca entender o cotidiano das mulheres? É algo que está em falta no mercado?

Mais e mais, marcas estão tentando acessar o que as mulheres realmente necessitam, mas desenhar inteligentemente para mulheres especificamente ainda é uma exceção, tristemente.

4. A história de Brittany no blog Brittany Herself sobre a Dear Kate nos mostra que há uma distinção sobre a aproximação entre a marca e seus clientes. Como você descreve esta relação entre a marca e seus clientes? Há alguma singularidade no modo como vocês se aproximam da cliente por se tratar de um produto íntimo?

Nós realmente priorizamos criar uma comunidade com nossos clientes, através de um rápido questionário de nossa maravilhosa representante de serviços Heidi, perguntando às pessoas sobre o feedback delas sobre novos produtos a desenvolver e como chamá-los, para conversas em mídias sociais. Eu gosto de sua ideia de que o vínculo é mais profundo por causa da natureza íntima do produto, eu não havia pensado nisto assim, mas definitivamente faz sentido!

Imagem de divulgação da coleção Queen Fancies. Fonte: www.dearkates.com

Imagem de divulgação da coleção Queen Fancies

5. Nos lookbooks, vocês retratam mulheres que não têm os corpos privilegiados pelas revistas. Por que vocês escolhem estas mulheres: Queen Fancies é uma coleção maravilhosa. Vocês se identificam com as ideias do body positive?

Claro! Imagine o que nós poderíamos realizar se nós pudéssemos devotar toda a energia e tempo que tantos de nós gastamos odiando e alterando mentalmente nossos corpos ou qualquer outra coisa. Seria como encontrar uma hora extra no dia.

6. Vocês criaram uma coleção especialmente voltada para esportes. Qual é o interesse da Dear Kate ao oferecer produtos de esportes para o público feminino? Há algum déficit de produtos esportivos para mulheres?

Muitos clientes escreveram pedindo por uma coleção de esportes, então nós desenhamos uma íntegra para ser verdadeiramente confortável e que desse apoio durante as atividades para as quais você realmente quer trabalhar, que ajudasse você a fazer suas coisas.

Imagem de divulgação da Sports Collection. Fonte: www.dearkates.com/

Imagem de divulgação da Sports Collection

7. Qual é a proposta do Go Commando?

Nós notamos que as calças de yoga eram estreitas e apertadas, o que significava que as pessoas encaravam um dilema: usar lingeries e senti-las enfeixar e irem para cima e para baixo e saber que elas provavelmente iriam aparecer debaixo das calças, ou ir sem elas e estressar sobre calças molhadas e transparentes. Então nós criamos calças de yoga que são feitas para ser mais firmes que a maioria, com a inserção do tecido Dear Kate Underlux que protege da mesma maneira que todas as Dear Kates o fazem.

8. O crowdfunding (financiamento coletivo) é uma forma de engajamento? Vocês acreditam que a moda pode envolver mais as pessoas em seus modos de produção?

Sim, absolutamente! Kickstarter têm nos ajudado a realmente ouvir o que as pessoas gostam, querem, e desejam que nós mudemos, o que tem sido maravilhoso. Nós pedimos às pessoas para votarem em vários componentes para esta campanha, das cores que oferecemos para contraste de costura aos estilos de sutiãs que elas queriam, e adicionamos shorts longos depois de muitas mulheres pedirem por eles. Tem sido fascinante ouvir o que as pessoas gostam!

A Dear Kate já foi noticiada pelo jornal Folha de S. Paulo . Para saber outras informações sobre a marca e adquirir um modelo, clique aqui. A dica da autora é acompanhar o Instagram da marca: é realmente estimulante!

Dear Kate’s Interview

1. What’s the difference about a product made by women to women?

Dear Kate was founded to solve a problem that Julie, the founder, experienced herself. When you come from needing a solution for yourself and from being in the community of those with similar needs, you create something that is more aware of the true needs of the community it’s intended for in mind, leading to something that really works, rather than something that maybe just sounds like a good idea.

2. Why a good lingerie would empower women?
It’s something you wear everyday, close to your body, so women should expect a lot from it!

3. Dear Kate’s clothes are related to the women’s routine. What’s the importance of a brand understand the daily lives of women? Is it something that is missing in the market?

More and more, brands are trying to assess what women really need, but designing intelligently for women specifically is still the exception, sadly.

4. Brittany’s story in Brittany Herself about Dear Kate show us that there is a distinction about the approach between the brand and the clients. How do you describe this relationship between the brand and clients? There is some singularity in the way that you approache the client because it’s about a intimate product?

We really prioritize creating a community with our customers, through speedy question-answering from our amazing customer service rep Heidi, to asking people for their feedback on what new products to develop and what to name them, to conversations on social media. I like your idea that the bond is deeper because of the intimate nature of the product, I hadn’t thought of it like that, but it definitely makes sense!

5. In the lookbooks, you portrays women that doesn’t have bodies privileged by magazines. Why do you choose these women? Queen Fancies collection is amazing. Do you identify with the ideias of body positive?

Of course! Imagine what we could accomplish if we could devote the energy and time so many of us spend hating and mentally altering our bodies on anything else. It’d be like finding an extra hour in the day.

6. You have created a collection specially facing for sports. What’s the interest of Dear Kate for offering sports products for female audience? There is a deficit about sports products created for women?

A lot of customers wrote in asking for a sport collection, so we designed one that’s no-nonsense enough to be truly comfortable and supportive during activities for which you really want workout wear that will help you do your thing.

7. What’s the proposal of Go Commando?

We noticed that yoga pants were thin and tight, which meant people faced a dilemma: wear underwear and feel them bunch up and ride up and down and knwo that they were probably going to show through your pants, or go without and stress over sweat and see-through pants. So we created yoga pants that are made to be sturdier than most, with an inset of the Dear Kate Underlux fabric that protects the same way all Dear Kate underwear does.

8. Is crowdfunding a form of engagement? Do you believe fashion can involve more people in their modes of production?

Yes, absolutely! Kickstarter has helped us really get to hear what people like, want, and want us to change, which has been awesome. We asked people to vote on a lot of components of this campaign, from the colors we offered for contrast stitching to the bralet style they wanted, and we added longer shorts after many women asked for them. It’s been really fascinating to hear what people like!

Repensar o Fast Fashion

Em 01.07.2014   Arquivado em Sem categoria

Um dia eu olhei para aquela pilha de revistas de Moda que eu colecionei durante a minha adolescência e percebi o quanto de consumo havia ali. Moda era sempre sobre o que a leitora (as editorias, um tanto equivocados, sempre se dirigiam às mulheres) iria procurar nas lojas, quais eram os achados de determinada cidade, onde comprar e quanto gastar. Todas estas chamadas realizavam, na minha cabeça, uma associação direta entre ser e consumir. Aquela típica consciência de jovem: para me enturmar e ser cosmopolita, eu tinha de ter acesso a todos aqueles itens – e nos lembremos, o consumismo é muito diferente de materialismo, já que envolve, em sua essência, um desejo de ser algo ou de conquistar algo através da aquisição de alguma coisa.

Mas se associação entre Moda e o consumo é inevitável, como contornar os fatos de que nem todos nós temos dinheiro para acompanhar tendências e que estes produtos nem sempre tem uma origem amistosa? Então o bom gosto estaria restrito às pessoas que têm recursos financeiros para consumi-lo?

Eu ouço suspiros cansados toda vez de tenho de passar por uma fast-fashion: são filas de pessoas que adquirem peças às pilhas, sem qualquer compromisso com a qualidade dos produtos que consomem ou com as condições de trabalho de quem os produziu. Peças que por vezes serão esquecidas no armário (não são raras as matérias sobre pessoas que compram mais itens do que realmente usam) e que logo serão superadas por outro jogo de tendências. Estas mesmas pessoas cansadas também alegam não ter tempo de se preocupar com a quantidade de lixo que geram, e que as fast-fashion são a solução para quem deseja estar bem vestido por um preço baixo.

A consultora de Moda, idealizadora do SP.ECOERA e do Ser Sustentável com Estilo, Chiara Gadaleta, afirmou em entrevista à Rádio UFMG Educativa que é possível pensar em uma Moda Sustentável, definida como “uma nova forma de consumir, pensar e vestir Moda. Uma forma mais conectada com as questões sociais e ambientais. É saber quem fez a roupa que você está usando. É uma criança escrava em estado de risco ou é um trabalhador valorizado? Ele foi feito com um material que gera impacto no meio ambiente e cultivado com pesticidas? Você precisa dessa roupa? Você se veste de quê?” e completou ” Essa roupa que você vai comprar exige uma responsabilidade do consumidor. Porque assim valorizamos o trabalho escravo destas grandes marcas.” Nesta mesma entrevista, a consultora também apontou que em um futuro próximo, os consumidores terão acesso a todas as informações do pré-consumo nas araras das lojas, considerando os avanços das tecnologias de informação. Enquanto não temos acesso a estas araras delatoras, cabe a nós questionar e pesquisar. Uma compra consciente, engajada, nos exige dedicação, mas é compensador: apenas se lembre de que você também se expressa através daquilo que você veste, e creio que nenhum de nós desejamos ser representantes de instituições escravocratas ou que despejem cerca de 50 toneladas de lixo no centro de São Paulo.

Chiara Gadaleta, idealizadora do SP.ECOERA e do Ser Sustentável com Estilo. Fonte: Harper's Bazaar

Chiara Gadaleta, idealizadora do SP.ECOERA e do Ser Sustentável com Estilo. Fonte: Harper’s Bazaar

E para quem não deseja fomentar este ciclo vicioso, são pensadas alternativas. O próprio Ser Sustentável com Estilo se dedica a publicar iniciativas que valorizem o trabalho artesanal e projetos sociais. Brechós também oferecem uma grande variedade de artigos para quem deseja exclusividade, e são um caminho para que os produtos se tornem menos descartáveis. E há ainda a opção para quem deseja um produto personalizado, participando de todas as etapas de produção: a boa e velha ida à costureira ou alfaiate. Deixe eu te contar uma história.

Este ano, realizei o grande sonho de ir um festival de música, o que coincidiu com a data de meu aniversário. Para comemorar um evento tão especial, pensei que gostaria de marcá-lo com o vestido mais bonito que já tivesse usado. Bom, eu já contei por aqui algumas vezes sobre a grande dificuldade que tenho em encontrar roupas para as minhas pequenas medidas. Mas não é que eu tenho uma companheira que sonha em fazer um curso de Moda, e que timidamente vai costurando seus próprios vestidos? Por que eu não incentivaria este sonho que é compartilhado por mim?

Laura e eu partimos em uma busca divertida pelo tecido adequado, e pensamos juntas no modelo do vestido. Trocamos ideias, pensamos em cada detalhe. E uma semana depois, o vestido azul inspirado em uma modelagem anos 40 estava pronto para se aconchegar em minha mala de viagem e desfilar na avenida Paulista. E observe bem os registros dos bastidores deste vestido:

Laura Fiorini brilha nos bastidores mas não se esconde das lentes da câmera

Laura Fiorini brilha nos bastidores mas não se esconde das lentes da câmera

Laura mede o tamanho das minhas costas.

Laura mede o tamanho das minhas costas.

Depois desta experiência, eu comecei a pensar porque o ato de comprar roupas tem de ser tão desligado da produção destas peças e porque, por vezes, se torna tão chato. Escolher algo que te represente e te proteja deveria ser divertido. Eu sempre aprendi muito sobre moda enquanto tagarelava com os proprietários das lojas, pedindo paciência para meu tamanho pequenino. Pense nos pequenos criadores, com ideias tão frescas, que concorrem com a inundação de produtos importados? Adquirir uma roupa deveria dizer sobre seu estilo e não causar angústias por causa de suas medidas, ou porque você descobriu logo depois que sua peça foi produzida por uma criança que trabalhava ilegalmente. Por que nós, consumidores, ainda assistimos a tantas denúncias de uso de mão de obra escrava por grandes fornecedores têxteis e continuamos a fomentar esta produção tão desumana?

O que tenho recomendado fortemente é que repensemos o nosso ato de consumir. Temos acesso facilitado à Internet e boas condições para pesquisas. Precisamos de incômodo, desassossego. Precisamos conhecer e cobrar atitudes das marcas que sustentamos. A Moda que te representa não se baseia apenas em aspectos estéticos, mas em tudo aquilo que você fomenta. E felizmente, não se trata de um pensamento à margem. Após o acidente de Bangladesh, em que 1.133 pessoas morreram em decorrência do desabamento de um prédio que abrigava ateliês de confecções, líderes da indústria de moda sustentável, ativistas e jornalistas se uniram em torno do Fashion Revolution Day para conectar os amantes da moda àqueles que produzem as roupas. A pergunta chave é: “quem fez suas roupas?”

Parece um tanto caro e dispendioso pensar em todo o ciclo de produção de uma peça, mas pense que esta pode ser a solução que buscamos para os impactos ambientais e sociais causados pela indústria têxtil sem que deixemos de consumir. E é também a atitude de alguém que, assim como eu, acredita que a Moda vai além da efemeridade de um clique ou de uma tendência. O consumo pode ser benéfico para todos os envolvidos no ciclo produtivo, e basta que nos engajemos em nossas buscas.

Errata: a autora tanto fez badalar com o vestido que se esqueceu de registrá-lo. Mas promete uma atualização com a foto do mesmo para uma sessão de Grease nos cinemas.

Atualização: a atrapalhada autora foi aloprada por sua câmera e teve de se arranjar com uma câmera de celular, algumas revistas, um editor de imagens e um beliche.

O vestido feito por Laura. Ouvi aí na plateia que me pareço a Ava Gardner quando o uso?

O vestido feito por Laura. Ouvi aí na plateia que me pareço a Ava Gardner quando o uso?

As costas do vestido e todos os riscos que uma jovem costureira pode correr. Valeu pela parceria, Laura! (:

As costas do vestido e todos os riscos que uma jovem costureira pode correr. Valeu pela parceria, Laura! (:

{Rapidinhas} Elogiemos os Homens Ilustres

Em 03.05.2014   Arquivado em Sem categoria

“Suas roupas eram deliberadamente baratas, não só porque fosse pobre, mas porque queria poder se esquecer delas. Ele fazia um terno ficar com o caimento perfeito graças ao simples método de não tirá-lo muito. Com o tempo o tecido se moldava a seu corpo. Lavar e passar teria acabado com esse lindo processo. Estou exagerando, mas às vezes realmente parecia que o vento, a chuva, o trabalho e a galhofa eram seus alfaiates. Por outro lado, ele achava que usar roupas boas e caras o envolvia em algum tipo de pretensão de superioridade de natureza social. Neste ponto ele às vezes confundia seus objetivos e se deixava cair em um cômico dandismo invertido. Deleitava-se mais com um par de tênis com defeitos de fabricação e um boné seboso do que o mais ortodoxo dândi se deleitaria com sapatos de pelica de marca e um chapéu coco de grife novo em folha.”
_James Agee em 1936 por Walker Evans. Elogiemos os Homens Ilustres, de James Agee e Walker Evans; p.7-8

Quando terminei de ler a descrição do fotógrafo Walker Evans sobre o parceiro James Agee, senti o sopro do que seria a caracterização perfeita de um perfil através do vestuário. Gostaria de compartilhar esta felicidadezinha. Coisas pequenas, aquela alegria de encontrar um pedacinho de si em um bom livro. Mas a viagem pelo Sul dos Estados Unidos em 1936 ainda está em seu início. Mais à frente, a unicidade do olhar de Evans e Agee fornece descrições ainda mais ricas sobre o vestuário dos meeiros de Alabama. Prometo não ser egoísta.

Fotografia de Walker Evans para "Elogiemos os Homens Ilustres", 1936.

Fotografia de Walker Evans para “Elogiemos os Homens Ilustres”, 1936.

_a autora precisa refutar muitas vezes que Moda não é somente sobre consumo. Em alguns momentos, precisa renovar o olhar para escapar das vitrines. Não que elas sejam más. No entanto, precisamos nos lembrar deste papel rústico e comezinho do que escolhemos para nos envolver e identificar.

A Pessoa Mais Bonita do Mundo é Lupita Nyong’o. E…?

Em 28.04.2014   Arquivado em Sem categoria

“O intelectual palestino-americano Edward Said se surpreendeu com o sucesso mundial do seu Orientalismo, livro de 1978, em que desvenda o caráter arrogante da construção do termo ‘Oriente’ pelos colonizadores europeus (França e Inglaterra, com o apoio dos Estados Unidos), por denotar uma suposta superioridade da cultura ocidental europeia em relação ao ‘exotismo’ dos países e povos árabes asiáticos.
Longe de do significar apenas uma referência inocente aos hemisférios, para Said, a divisão do mundo em ‘Oriente’ e ‘Ocidente’ intensificou as diferenças e dificultou a aproximação entre as várias culturas.” (reportagem de Magali Cabral para Página 22, p.24, número 83)

Lupita Nyong'O para Miu Miu

Lupita Nyong’O para Miu Miu

2014 nos concedeu a primeira produção de um diretor negro a faturar o Oscar de Melhor Filme do Ano. No mesmo ano, Lupita Nyong’o foi eleita a Pessoa Mais Bonita do Mundo pela revista People, após também ganhar um Oscar por seu papel em 12 Anos de Escravidão(Steve McQueen, 2013), colocando em xeque padrões eurocêntricos e mesmo o que deve ser considerado em um concurso de beleza. Lupita não foi a primeira mulher negra a ser colocada no posto (ver a lista de Pessoas Mais Bonitas do Mundo eleitas pela People abaixo), mas a sua premiação torna-se bastante importante dentro do contexto em que vivemos.

a lista de "Pessoas Mais Bonitas" eleitas pela People ao longo dos anos.

a lista de “Pessoas Mais Bonitas” eleitas pela People ao longo dos anos.

Alguns ocorridos decorrentes da eleição me deixaram em desassossegada. A primeira consideração que faço é quanto à busca de motivos pelos quais Lupita ocuparia o posto, mesmo da parte daqueles que a defendem. Apenas pense que as demais celebridades eleitas pela revista não tiveram de dar satisfações sobre suas posições no concurso. Além disso, Lupita Nyong’o é rosto de campanhas da Miu Miu e é a primeira embaixadora negra da Lancôme. Então também não se iluda com um repentino apelo social da publicação e lembre-se da força do marketing em uma eleição organizada por uma das revistas mais lidas dos EUA. Deixemos esta colocação neste ponto, pois irei retomá-la mais à frente.

Além da frenética busca por justificativas, um outro acontecimento que me incomodou bastante ao observar os comentários sobre a eleição foi o uso do termo “exótico” para descrever a beleza de Lupita. E é aqui que mais uma vez dirijo a minha crítica às publicações de moda. É bastante questionável o que revistas e produtores do setor denominem como “exótico” na passarelas e nos editoriais. O termo é empregado em editoriais e reportagens que tratem sobre influências do “Oriente” nas criações dos estilistas, sem considerar a forma como este termo distingue o que provém de outras culturas. O “exótico” vem de uma construção binária, onde tudo o que vem do “Ocidente” é um padrão. Empregado no mundo da moda, o “exótico” me preocupa por estar em um contexto de tendências. Acessórios “exóticos”, como todos os acessórios, estão sujeitos à efemeridade das passarelas. Quando o “exótico” de Lupita cair em desuso, passaremos a desvalorizar a sua beleza? E por que Lupita é considerada como uma mulher “exótica”, se convivemos com tantas como ela? Ela é “exótica” por que, finalmente, resolvemos considerar seus seios pequenos, seus braços fortes e seu cabelo crespo como belos? Ou por que, diferentemente de Beyoncé e Halle Berry, as duas mulheres negras anteriormente condecoradas pela mesma seleção da People, Lupita Nyong’o é queniana?

Também vi algumas pessoas questionarem o porque de darmos tanta importância para um concurso de beleza. Voltemos ao marketing que envolve os critérios considerados em uma eleição como a da People. A campanha de Lupita Nyong’o para a Miu Miu é também estrelada por outras três atrizes: Elle Fanning, Bella Heathcote e Elizabeth Olsen, todas elas brancas. A campanha da atriz queniana para a Lancôme somente produzirá resultados em setembro. E eu apresento aqui a importância desse bagulho, companheiro! Trata-se, como a própria colocou em seu discurso para o ESSENCE Black Women in Hollywood, de uma questão de representatividade.

Até quando teremos de ver pessoas negras nas capas das revistas de Moda sob o rótulo do “exótico”? O discurso da mulher que um dia clamou à Deus para que acordasse branca vai se incorporar quando o rosto de Lupita vender tantos produtos Lancôme quanto o de Kate Winslet. Eleger Lupita Nyong’o como a Pessoa Mais Bonita do Mundo é uma prova de que o rosto dela é desejado. Não se trata de cotas, ou de pena da mocinha africana que estrelou o filme sobre escravidão . Você terá de trabalhar bastante para usar qualquer vestido que Lupita use. A pele dela exala saúde em qualquer imagem, o que você somente obteria após três camadas de um primer de grife que vai pagar no cartão de crédito (ou aplicando um filtrosinho chinfrim no Instagram). Você não tem um Oscar em sua prateleira. Não trabalhou com Meirelles, e não participará de uma selfie ao lado de Meryl Streep, Ellen deGeneres, Jennifer Lawrence, Julia Roberts e Brad Pitt. Você não vai girar no tapete vermelho em um longo Prada feito exclusivamente para você. Ela tem ousadia, e convoca elementos de seu país sem cair no clichê do *étnico* (outro termo que anda a me causar coceiras). Suspenda a chacota do exótico desta discussão. Lupita é uma mulher desejável, e sua eleição se dirige a todas as pessoas que, como ela, não se vêem nas revistas, ou que foram reduzidas pela facilidade dos estereótipos, que decepam qualquer identidade furiosamente. O desafio de Lupita será mensurado nos resultados publicitários. Cruzemos os dedos. Particularmente, quero que a Lancôme e a Miu Miu lucrem violentamente, tão vorazmente como o capitalismo jamais poderia almejar.

Update: o termo “étnico” anda causando coceirinhas em mais gente. Que delícia.

_a autora, diante dos desafios diários de uma estagiária de jornalismo com um TCC tocando cuícas e o tanque cheio de roupas para lavar, rascunhava um texto sobre o consumismo quando ficou assustada com a falta de miolos alheia. A autora também não se vê nas revistas, está em dieta de engorda, e achou maneiríssimo quando viu Lupita usar um puto de um decotão para seus seios pequenos.

Página 13 de 13«1 ...910111213